Por Raul Marques
Poucos assuntos despertam tanta curiosidade entre designers quanto a Proporção Áurea.
Ela aparece em livros.
Cursos.
Palestras.
Vídeos.
E, principalmente, em apresentações que prometem revelar o “segredo” por trás dos grandes logotipos do mundo.
Durante muitos anos, criou-se a ideia de que bastaria aplicar a Proporção Áurea para transformar qualquer desenho em uma identidade visual melhor.
Como se existisse uma fórmula matemática capaz de produzir marcas memoráveis.
A realidade é muito diferente.
Nenhuma proporção cria uma grande marca.
Nenhuma equação substitui uma Estratégia bem construída.
Nenhuma ferramenta compensa um posicionamento inexistente.
Mas isso não significa que a Proporção Áurea seja irrelevante.
Muito pelo contrário.
Quando utilizada com critério, ela pode contribuir para organizar relações de equilíbrio, ritmo e proporção entre os elementos visuais de uma identidade.
No Método Raul Marques, ela não ocupa este momento porque cria logotipos.
Ela ocupa este momento porque ajuda a organizar aquilo que já foi estrategicamente definido.
É uma ferramenta de construção.
Nunca um ponto de partida.
O que é a Proporção Áurea?
A Proporção Áurea é uma relação matemática encontrada em diferentes manifestações da natureza, da arquitetura, da arte e do design.
Ela descreve uma proporção considerada visualmente equilibrada, representada pelo número irracional 1,618033…, conhecido pela letra grega φ (phi).
Ao longo da história, essa relação passou a ser observada em diversos contextos.
Na disposição das folhas de algumas plantas.
Nas espirais presentes em conchas.
Na organização de flores.
Em obras arquitetônicas.
Em pinturas clássicas.
E, mais recentemente, também em projetos de design.
Essa recorrência fez surgir uma associação bastante forte entre a Proporção Áurea e a ideia de harmonia visual.
Mas existe uma diferença importante.
Encontrar essa proporção em diferentes objetos não significa que toda boa composição obrigatoriamente precise utilizá-la.
Ela representa uma possibilidade.
Não uma regra.
Muito além dos logotipos
Quando a Proporção Áurea passou a ganhar popularidade entre designers, ela rapidamente foi associada à criação de marcas.
Diversos estudos começaram a demonstrar grades geométricas sobre logotipos famosos.
Círculos perfeitos.
Retângulos áureos.
Espirais.
Relações matemáticas.
Essas apresentações despertaram fascínio.
Mas também criaram uma interpretação equivocada.
A impressão de que grandes logotipos nasceram exclusivamente por causa dessas construções.
Na prática, isso raramente acontece.
Em muitos casos, a geometria foi identificada depois que o desenho já existia.
Em outros, ela foi utilizada apenas como ferramenta de refinamento.
E existem inúmeros logotipos extremamente bem construídos que jamais utilizaram qualquer relação baseada na Proporção Áurea.
O valor de uma marca nunca esteve na matemática utilizada para desenhá-la.
Sempre esteve na identidade que ela representa.
O que você encontrará neste artigo
Ao longo deste capítulo você compreenderá:
- o que é a Proporção Áurea;
- por que ela ficou conhecida como uma relação associada à harmonia visual;
- quais mitos cercam sua aplicação no design;
- como ela pode contribuir para a construção de identidades visuais;
- e por que ela representa uma ferramenta de organização visual, e não uma fórmula para criar grandes marcas.
A Proporção Áurea organiza. Ela não substitui decisões.
Existe uma diferença importante entre construir uma identidade visual utilizando critérios de proporção e acreditar que a proporção, por si só, criará uma identidade melhor.
São coisas completamente diferentes.
A Proporção Áurea pode ajudar a definir relações de tamanho.
Distâncias.
Espaçamentos.
Hierarquias.
Curvas.
Equilíbrios.
Mas ela não escolhe conceitos.
Não define posicionamento.
Não estabelece personalidade.
Não cria diferenciação.
Todas essas decisões já deveriam ter sido tomadas muito antes.
É justamente por isso que, no Método Raul Marques, ela aparece somente neste momento da construção.
Porque agora já existe algo para ser organizado.
A Estratégia definiu a direção.
O Branding estabeleceu os Critérios de Percepção.
O Naming nomeou a marca.
O Logotipo e o Símbolo começaram a materializar visualmente essa identidade.
Somente então uma ferramenta de proporção passa a fazer sentido.
Ela organiza.
Ela refina.
Ela auxilia.
Mas jamais substitui aquilo que veio antes.
Harmonia visual não depende exclusivamente da Proporção Áurea
Outro equívoco bastante comum consiste em acreditar que toda composição visual harmoniosa necessariamente utiliza a Proporção Áurea.
Não utiliza.
Existem inúmeras relações matemáticas capazes de produzir equilíbrio visual.
Existem grades modulares.
Sistemas geométricos.
Proporções simples.
Escalas tipográficas.
Relações simétricas.
E diversas outras estruturas que também podem gerar excelentes resultados.
A própria percepção humana não depende exclusivamente da razão áurea para reconhecer beleza, equilíbrio ou organização.
A harmonia visual costuma ser consequência da coerência existente entre todos os elementos da composição.
É justamente por isso que a Proporção Áurea deve ser entendida como uma ferramenta.
E não como uma obrigação.
Quando utilizada com critério, pode contribuir significativamente para a construção visual.
Quando utilizada apenas para justificar decisões estéticas, torna-se apenas um argumento matemático sem função prática.
O equilíbrio também comunica
Existe, porém, um motivo pelo qual a Proporção Áurea desperta tanto interesse entre designers.
Ela frequentemente produz relações que parecem naturais ao olhar humano.
E essa sensação de equilíbrio também influencia percepção.
Uma composição equilibrada pode transmitir estabilidade.
Organização.
Sofisticação.
Clareza.
Precisão.
Enquanto relações excessivamente desproporcionais podem gerar desconforto ou sensação de desorganização.
Isso não significa que toda marca precise parecer equilibrada da mesma maneira.
Algumas identidades desejam transmitir ruptura.
Inovação.
Tensão.
Movimento.
Dinamismo.
E, nesses casos, outras relações visuais podem fazer muito mais sentido do que uma construção baseada na Proporção Áurea.
Mais uma vez, tudo depende da Estratégia.
Porque a matemática jamais deveria determinar a identidade.
A identidade é que determina quais ferramentas matemáticas realmente fazem sentido para sua construção.
Grandes marcas não são grandes por causa da Proporção Áurea
Talvez essa seja a principal conclusão deste capítulo.
Nike não se tornou Nike por causa da Proporção Áurea.
Apple não construiu sua reputação por causa da Proporção Áurea.
Mercedes-Benz não conquistou reconhecimento mundial por causa da Proporção Áurea.
O que construiu essas marcas foi a consistência.
As experiências.
A Estratégia.
O Branding.
A Governança.
E a reputação acumulada ao longo do tempo.
A geometria pode contribuir para organizar uma identidade visual.
Mas jamais será responsável por construir uma marca forte.
Porque marcas fortes são construídas por pessoas.
Não por números.
Conclusão
A Proporção Áurea representa uma das relações matemáticas mais conhecidas da história.
Sua presença na natureza, na arte, na arquitetura e no design fez com que ela passasse a ser associada à ideia de equilíbrio e harmonia visual.
Mas compreender sua importância exige abandonar um dos maiores mitos que cercam esse tema.
Ela não cria grandes marcas.
Ela não produz grandes logotipos.
Ela não substitui Estratégia.
Nem Branding.
Nem identidade.
No Método Raul Marques, a Proporção Áurea ocupa um papel muito específico.
Ela representa uma ferramenta capaz de organizar relações visuais quando já existe uma identidade claramente definida.
Sua função é refinar.
Equilibrar.
Aprimorar.
Nunca determinar.
Quando utilizada dessa forma, ela pode contribuir significativamente para a construção de elementos gráficos mais consistentes.
Quando tratada como uma fórmula milagrosa, perde completamente seu verdadeiro valor.
Porque nenhuma equação é capaz de construir reputação.
Mas uma identidade construída com critérios, coerência e consistência pode utilizar a matemática como uma excelente aliada.
Em uma frase
A Proporção Áurea é uma ferramenta de organização visual que pode contribuir para o equilíbrio da identidade, mas jamais substitui as decisões estratégicas que constroem uma marca.
O que você deve lembrar deste capítulo
✓ A Proporção Áurea é uma relação matemática historicamente associada ao equilíbrio e à harmonia visual.
✓ Sua aplicação pode auxiliar na organização de proporções, espaçamentos e relações geométricas dentro da identidade visual.
✓ Não existe qualquer evidência de que grandes marcas sejam fortes por utilizarem a Proporção Áurea.
✓ A matemática organiza a construção visual, mas não define posicionamento, personalidade ou diferenciação.
✓ No Método Raul Marques, a Proporção Áurea é tratada como uma ferramenta de refinamento, nunca como ponto de partida para criar uma marca.
Próxima leitura
Até aqui compreendemos como a Proporção Áurea pode contribuir para organizar relações visuais entre os elementos da identidade.
Mas existe outro recurso igualmente importante durante a construção de marcas.
O Grid.
Enquanto a Proporção Áurea estabelece relações de equilíbrio, o Grid organiza posicionamentos, alinhamentos e proporções entre todos os elementos que compõem uma identidade visual.
No próximo capítulo compreenderemos por que o Grid representa uma das principais ferramentas de construção e consistência utilizadas no design de marcas.
→ Próximo capítulo: Grid — A estrutura que organiza a construção da identidade visual.
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